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Discurso tem poder / guia da redação

Texto dissertativo-argumentativo · norma-padrão

Discurso jornalístico: entre os interesses particulares e o compromisso social

Um guia completo para escrever essa redação usando O Agente Secreto como repertório principal — com a tese, o esqueleto, o texto pronto e anotado, e o que a banca procura em cada parágrafo.

O discurso tem poder. Aquilo que a imprensa nomeia passa a existir publicamente; aquilo que ela silencia desaparece do debate. Essa é a microtese — tudo no texto serve para sustentá-la.
4 parágrafos ~30 linhas 5 repertórios Repertório-âncora: O Agente Secreto (2025)

Ponto de partida

Os três textos da prova, traduzidos

A banca não pede resumo dos textos motivadores — pede que você discuta o que eles levantam. Aqui está o que cada um entrega e o que vale puxar de cada um.

Texto 1

Opinião

Angélica Cerqueira defende que o jornalismo tem um compromisso com o interesse público, e que equilíbrio não é omissão nem distorção. Imprensa que se alinha explicitamente a um lado deixa de fiscalizar.

O que puxarA frase-chave: omitir também é mentir. É a ponte perfeita para a censura da ditadura.

Texto 2

Tirinha

Alexandre Beck: em "tempos de informação líquida", separar fato de versão fica difícil — e a sequência termina no "jornalismo da propaganda", com a personagem já deitada, passiva.

O que puxarA imagem do consumidor passivo. Serve para o parágrafo sobre desinformação e algoritmo.

Texto 3

Sua tese

Vinícius Macia afirma que "jornalismo é discurso, e todo discurso é poder", mas lembra que a imprensa profissional ainda é um espaço de fatos apurados num mundo de desinformação.

O que puxarA microtese inteira nasce daqui. Cite na conclusão para fechar o círculo.

Demonstração

O mesmo fato, três manchetes

Antes de escrever, entenda por que "discurso tem poder" não é frase de efeito. Um único acontecimento — a morte de um jornalista sob custódia do Estado — vira três realidades diferentes conforme o recorte. Clique nas abas.

Edição da manhãSão Paulo · 26 out 1975

Camões, poeta maior, é relembrado em nova edição comentada

A página que traria a notícia vetada foi preenchida com literatura. O leitor nunca soube que havia um vazio ali.

Mecanismo
Nada foi dito de falso — e é exatamente esse o problema. A omissão é a mentira mais eficiente, porque não deixa rastro para o leitor contestar.

Mecanismo

Como um fato vira "realidade pública"

Este é o argumento central do seu texto desenhado. Repare no caminho de baixo: ele não termina em lugar nenhum, e é justamente por isso que ele importa.

Fato ACONTECEU Filtro INTERESSES Recorte O QUE ENTRA Manchete O ENQUADRE Opinião PÚBLICA apura seleciona nomeia forma o que é omitido Não existe no debate SEM RASTRO, SEM CONTESTAÇÃO beco sem saída
O caminho de baixo é a tese. Uma notícia distorcida ainda pode ser desmentida — ela deixou rastro. Uma notícia omitida não gera nem suspeita: o leitor não sente falta daquilo que nunca soube existir. É por isso que o protagonista de O Agente Secreto precisa de arquivos, e não de jornais, para reconstituir o passado.

A analogia

1977 e hoje: a mesma máquina, outro filtro

A sua amiga pediu analogia com a realidade — esta é ela. Não mudou o mecanismo; mudou quem opera o filtro. Alterne entre as duas épocas.

EntradaUm corpo aparece na cidade
FiltroCensor de farda na redação
Saída"Crime comum", nota de rodapé
Quem mandaO Estado, por decreto e por medo
Enche o espaçoReceita de bolo, versos de Camões, a lenda da perna cabeluda
Custo socialMortes viram estatística invisível; a memória precisa ser garimpada em arquivos décadas depois
Como se resisteImprensa alternativa, gravações clandestinas, arquivo guardado

O texto

A redação, anotada

Os trechos destacados são os repertórios. Clique em análise em cada parágrafo para ver a função dele, o conectivo usado e o que a banca avalia ali.

P1 Introdução · contextualização + tese

Em “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho, os jornais do Recife de 1977 dedicam manchetes à lenda da perna cabeluda encontrada no ventre de um tubarão, enquanto assassinatos políticos são reduzidos a crimes comuns — ou sequer noticiados. A cena sintetiza um mecanismo: aquilo que a imprensa nomeia passa a existir publicamente; aquilo que ela silencia desaparece do debate. Justamente porque o discurso tem poder, o jornalismo submetido a interesses particulares — do regime, do anunciante ou do algoritmo — deixa de mediar a realidade e passa a fabricá-la, o que torna urgente o resgate de seu compromisso social.

Função
Abre com repertório concreto (uma cena, não uma generalidade), extrai dela um princípio e só então declara a tese. Evita o clichê do "desde os primórdios da humanidade".
Tese
Está na última frase, explícita: imprensa refém de interesses particulares fabrica a realidade em vez de mediá-la.
Conectivo
Justamente porque — amarra a cena à tese por relação de causa, mostrando que o repertório trabalha, não decora.
A banca vê
Repertório produtivo (Comp. 2) e projeto de texto claro (Comp. 3): os três "interesses" listados anunciam os parágrafos seguintes.
P2 Desenvolvimento 1 · o passado e a mentira por omissão

Historicamente, a ditadura militar brasileira comprovou que a mentira mais eficaz não é a afirmação falsa, mas a omissão. Sob censura prévia, veículos substituíam matérias vetadas por receitas de bolo e versos de Camões, e a morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, foi divulgada como suicídio a partir de uma versão oficial jamais apurada. Não por acaso o protagonista do filme precisa recorrer a gravações, documentos e arquivos guardados para reconstituir o que de fato ocorreu: a verdade sobrevivia fora do jornal, porque dentro dele o texto já havia sido escrito por outro autor. Como defende Angélica Cerqueira, equilíbrio não é omissão nem distorção — quando a imprensa se cala diante do poder, ela não é neutra, é cúmplice.

Função
Prova histórica da tese. Sai da ficção e entra no fato verificável, para que o filme não seja a única sustentação.
Argumento
Distinção entre mentir e calar. É a ideia mais forte do texto: silêncio também é discurso.
Conectivo
Historicamente abre; Não por acaso costura o fato ao filme; Como defende incorpora o Texto 1.
A banca vê
Uso do texto motivador sem cópia (Comp. 2 e 3) e progressão: o parágrafo termina com uma sentença de julgamento, não com um exemplo solto.
P3 Desenvolvimento 2 · o presente e o filtro do engajamento

Na contemporaneidade, o censor fardado foi substituído por pressões mais sutis, porém igualmente eficientes. A lógica do engajamento premia o escândalo, e a manchete passa a ser calculada pelo clique, e não pelo interesse público, movimento retratado na tirinha de Alexandre Beck, em que a dificuldade de separar fato de versão desemboca no “jornalismo da propaganda”. O caso da Escola Base, em 1994 — no qual uma acusação sem provas foi amplificada por grandes veículos e destruiu a vida de inocentes, depois inocentados —, evidencia o custo social da pressa por audiência. Sobra, desse cenário, um cidadão que desconfia do jornal profissional e, paradoxalmente, credita fé ao boato recebido pelo celular.

Função
Traz a tese para hoje. Mantém a mesma estrutura do P2 (princípio → exemplo → consequência), o que dá ritmo ao texto.
Argumento
Mudou o operador do filtro (Estado → métrica de audiência), não o mecanismo. É a analogia que a proposta pede.
Conectivo
Na contemporaneidade marca o salto temporal; porém e paradoxalmente sustentam a oposição interna.
A banca vê
Repertório atual e pertinente + fechamento que prepara a conclusão: o problema agora tem uma vítima nomeada, o cidadão.
P4 Conclusão · retomada da tese + encaminhamento

Depreende-se, portanto, que o discurso jornalístico é uma forma de poder e, como todo poder, exige limites e fiscalização. Cabe às escolas, amparadas pela Política Nacional de Educação Digital (Lei nº 14.533/2023), formar leitores capazes de checar fontes e identificar vieses; aos veículos, cabe tornar públicos seus critérios editoriais e seus financiadores, submetendo-se ao escrutínio que cobram dos outros. Só assim a imprensa deixa de ser o tubarão que engole a verdade e volta a ser o que Vinícius Macia chama de espaço de fatos bem apurados.

Função
Retoma a tese com outras palavras, distribui responsabilidades e fecha com imagem que reaproveita o repertório da introdução (o tubarão).
Fecho
O "círculo" — abrir e fechar com a mesma imagem — é o que dá sensação de texto acabado, não de texto interrompido.
Conectivo
Depreende-se, portanto marca conclusão; Só assim liga a proposta ao resultado esperado.
Se pedirem intervenção
Já há agente e ação. Falta explicitar meio e finalidade — veja a variação pronta na seção "Se a prova exigir mais".

Munição

Os cinco repertórios, prontos para citar

Cada um vem com a frase de encaixe e o risco de usar errado. Abra os que ela for usar.

Filme de Kleber Mendonça Filho ambientado no Recife de 1977, em plena ditadura. A cidade lê nos jornais a lenda sensacionalista da perna cabeluda enquanto a violência política corre por baixo, sem apuração. O passado só é reconstituído depois, a partir de arquivos e gravações guardadas.

"Os jornais do Recife de 1977 dedicam manchetes à lenda da perna cabeluda encontrada no ventre de um tubarão, enquanto assassinatos políticos são reduzidos a crimes comuns."

CuidadoCite como representação, nunca como prova histórica. Por isso o P2 traz Herzog e a censura como fato, e o filme entra como leitura simbólica. Se a memória dos detalhes falhar, use a fórmula genérica: "o protagonista, vigiado num Recife de 1977…" — o argumento não depende do detalhe.

O jornalista morreu nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo. A versão oficial de suicídio foi reproduzida pela imprensa sem apuração independente e só décadas depois o atestado de óbito foi retificado pela Justiça.

"A morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, foi divulgada como suicídio a partir de uma versão oficial jamais apurada."

Por que funcionaÉ o exemplo perfeito da tese: não houve invenção da imprensa, houve reprodução acrítica do discurso do poder. Mostra que aceitar a versão pronta já é uma escolha editorial.

Com a censura prévia instalada nas redações após o AI-5, jornais preenchiam os buracos deixados por matérias vetadas com receitas culinárias e versos de Os Lusíadas — um protesto silencioso que virou símbolo do período.

"Sob censura prévia, veículos substituíam matérias vetadas por receitas de bolo e versos de Camões."

EncaixeÉ a imagem mais concreta possível da omissão: o leitor via a página cheia e não percebia o vazio. Usa isso para provar que "página cheia" não é sinônimo de "público informado".

Donos e funcionários de uma escola infantil em São Paulo foram acusados de abuso sexual sem qualquer prova. Grandes veículos amplificaram a acusação, a escola foi depredada, as vidas foram destruídas — e o inquérito acabou arquivado por absoluta falta de provas.

"O caso da Escola Base, em 1994, evidencia o custo social da pressa por audiência."

Por que é forteProva que o problema não é só político: a busca por audiência, sozinha, já produz condenação pública sem julgamento. Conecta o passado da ditadura com a lógica do clique de hoje.

Institui diretrizes para incluir letramento digital e informacional na educação básica — ou seja, ensinar o estudante a checar fonte, reconhecer viés e identificar desinformação.

"Cabe às escolas, amparadas pela Política Nacional de Educação Digital (Lei nº 14.533/2023), formar leitores capazes de checar fontes e identificar vieses."

Onde entraServe de base legal para a conclusão. Repertório de lei impressiona porque mostra que a solução proposta não é invenção — já existe política pública para ela.

Antes de entregar

Checagem final

Os erros que mais derrubam nota nessa proposta específica. Marque conforme conferir.

0 / 7

Plano B

Se a prova exigir mais

Duas peças de reposição: uma abertura alternativa, caso ela não se lembre bem do filme, e uma conclusão com proposta de intervenção completa, no formato do ENEM.

Abertura alternativa · pela tirinha

Na tirinha de Alexandre Beck, a personagem começa lendo o jornal em pé e termina deitada, entregue ao “jornalismo da propaganda”. A degradação da postura é a degradação do leitor: quando não se consegue mais separar fato de versão, resta consumir. Como todo discurso é uma forma de poder, o jornalismo submetido a interesses particulares deixa de mediar a realidade e passa a fabricá-la — o que torna urgente o resgate de seu compromisso social.

Use se a memória do filme estiver frágil. Mantém a mesma tese, então os parágrafos 2, 3 e 4 continuam válidos sem nenhuma alteração.

Conclusão com intervenção completa

Depreende-se, portanto, que o discurso jornalístico é uma forma de poder e, como tal, exige fiscalização. Cabe ao Ministério da Educação, amparado pela Lei nº 14.533/2023, inserir o letramento midiático nas grades do ensino médio, por meio de oficinas de checagem de fontes conduzidas em parceria com agências de fact-checking, a fim de formar leitores capazes de distinguir apuração de propaganda. Assim, a imprensa deixa de ser o tubarão que engole a verdade e volta a ser espaço de fatos bem apurados.

Agente: MEC. Ação: inserir letramento midiático. Meio: oficinas com agências de checagem. Finalidade: formar leitores críticos. Detalhamento: a lei que ampara.